sexta-feira, 15 de abril de 2011

Coisas Nossas

O mundo tem um pouco do que a gente sonha, um pouco do que a gente muda e um pouco do que a gente tenta.
Acho que se transmite nos sorrisos e nas gotas de suor, nas promessas, mentiras e desconfianças. Mas carrega também algumas certezas, como a de que vai se esvair no tempo e em toda a extensão do espaço, e a de que vai levar gente consigo.
Pertence aos loucos e aos desprovidos, porque não teme e não sente pena. É assim que as coisas impuras funcionam.
Por isso não é digno de se desistir: algo que carrega tanto de nós, deveria ser inspirador.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Apego

Os outros tem dessas de se enroscar no cotidiano e fazer dele mais que um desejo contínuo, quase que um fetiche, para onde voa o tempo e se instala, feito aquela velha chaga de que tratei um dia.
O prazer fica guardado no corpo, o cheiro e tudo tudo tudo tudo...
Tem uns que nem pedem permissão, se consideram íntimos de tudo o que você mais deseja e prevêem até aquilo que só a fibra mais tímida do seu coração é capaz de sentir. Tem um pouco de saudade e de solidão e desses outros eu gosto. Não desgastam o ego e te dão vontade. 
No entanto, há aqueles que gostam de fazer apelos e malabarismos. Se certificam de vestir a melhor das fantasias e domar o seu orgulho todo; não deixam nem a semente... Sugam você e o que estiver por perto, não te concedem direitos, não te pedem explicações. Com esses me decepciono, mas me apego.
Bem, antes fossem só minhas essas falácias, mas não sou egoísta, quero mais é que se enrosquem, se apeguem, se instalem e virem chaga, que é pra ter mais intensidade e menos vergonha de si.

quarta-feira, 23 de março de 2011

O Contribuinte

Na semana passada meu pai recebeu, pelo correio, uma multa por excesso de velocidade no valor de 547 reais. A fotografia anexada ao documento, no entanto, era a de uma moto que visivelmente não pertencia a ele. A única semelhança que havia era a placa, clonada. E aqui começa a minha historinha:
Em um país de verdade haveria duas conclusões óbvias para este fenômeno. A primeiro diz respeito a um equívoco por parte do órgão responsável pela multa. A segundo corresponde a um ato de má fé por parte do cidadão que clonou a placa da moto.
Entretanto, para provar a ocorrência de uma ou outra possibilidade, é necessário que se apresentem defesas, primeiramente ao órgão de trânsito e, em um segundo momento, caso as provas não tenham sido suficientes para divertir o público, deve-se recorrer à justiça.
Isto é, além de receber uma acusação falsa, o contribuinte deve arranjar meios para se defender. Gastando tempo, dinheiro, paciência e moral perante o órgão incompetente que o multou. Isto, claro está, sem o direito de indenização de qualquer ordem, caso suas provas sejam suficientes para poupá-lo do pagamento pela infração cometida por outrem.
Ao que tudo indica, há uma espécie de recompensa para a vítima que conseguir defender-se de uma multa de trânsito mal aplicada: é o direito de não precisar pagar por ela. No entanto, o advogado pago para prestar auxílio neste processo, a gasolina gasta para locomover o indivíduo, os danos morais que sofreu ou as horas de trabalho perdidas para resolver o problema no qual foi metido, não lhe serão ressarcidas.
Enlouquecendo as ideias, eu me aventuraria a dizer que seria, análogamente a essa situação, como se a empresa das multas decidisse enviar mil cartas, multando os mais diversos contribuintes brasileiros por infrações que não cometeram. Aqueles que conseguissem se sair melhor na defesa de seus atos, teriam o direito de não pagar pelo valor escolhido pelo órgão. Porém, os que não tivessem a capacidade de se defender, pagariam todos os centavos da injustiça.
Por enquanto, a crônica termina aqui. Para informar o resultado da defesa formulada pelo meu pai, o período solicitado pelo órgão responsável por toda a fuzarca é de 90 dias.
Meu último adendo, ei-lo: a multa supracitada foi registrada numa segunda-feira.
Na quinta-feira da mesma semana a carta com o aviso da infração chegou na minha casa, selada, carimbada, lacrada, sem maiores atrasos, e cheia de si.
Muito me espanta a eficiência da cobrança.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Ao Sentido

Nossas vidas só se tornam úteis quando as dotamos de sentido, seja ele qual for.
Não dá pra viver só de instantes, é necessário acordar pensando em alguém, planejar as férias de verão, o corte de cabelo, a roupa da festa. A gente tem que comprar presentes bobos, escrever cartas sem destinatário. Enfim, é preciso ser um pouco apaixonado pra não enjoar do cotidiano.
O coração da gente é muito vulnerável, logo vai se deixando envolver por algum encanto qualquer da vida.
No entanto, o que tem de volúvel, tem de despótico. Acha que é rei, dono de um exército de súditos bem-humorados e sem grandes ocupações. Quer decidir seu futuro, quer consertar aquelas coisas que se extraviaram no tempo.
Sonhadores, não deixeis que a emoção, soberana, vos guie o tempo todo, e tratem de agarrar o abismo, porque a razão pode ser o combustível para uma vida inteira.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Diálogo

- Mas porquê você não ficou triste com essas coisas?
- Não sei. Acho que antes de qualquer coisa, me edifico detrás de algo forte o suficiente para que afaste de mim qualquer manifestação rude ou impensada.
- Por parte dos outros?
- É claro. Eu não faço mal a mim mesma.
- Nem quando você decide abrir mão de algo de que gosta ou acredita, só pra agradar outra pessoa?
- Nunca fiz isso.
- Isso, no mínimo, é impossível.
- Não. Impossível é tudo aquilo em que não se deposita fé. E eu acredito muito no amor que temos por nós mesmos; mais do que no amor de uns pelos outros.
- Você é oca.
- Não me esforço pra fazer ninguém feliz. Quem quiser isso, que siga meus passos. Porque sou eu quem enxerga o mundo com esses olhos fatigados. Muita gente julga anonimamente, mas não sabe de um terço do que se passa na tua vida. Isso é errado. E já que não tenho como saber quem é honesto, padronizo meus sentimentos.
- Isso é tudo?
- Sim.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Só de passagem

Quero toda a sujeira do mundo nas minhas mãos, que é pra eu dar um basta na dor.
Vou sair por ai, fazendo mutirão no coração das pessoas. Vou recolher as angústias do povo, o choro das crianças, a fome do mundo e o leite derramado.
Quero ver quem vai correr de mim com medo de ficar sem tristeza, quem vai me desafiar dizendo que não sou capaz.
Vou buscar nas retinas o arrependimento dos homens, vou sugar o desespero da alma dos doentes, e dar aos que nada tem, tudo o que o mundo lhes deve por direito.
A raiva vai me encarar de frente e eu vou fazer dela um tapete vermelho, por onde os humildes hão de passar.
Os corações vão conhecer a vaidade, os carentes, carinho. E os apaixonados darão ainda mais sentido à vida. Ensinarão que a pressa deve andar a passos lentos, que o tempo gosta de andar acompanhado.
Não quero saber de um só fio de tristeza neste mundo.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Um Severino

A moça tinha os cabelos presos e um par de olhos que eu acho que era capaz de caber o mundo todinho lá dentro. Um sorriso meio bobo, que não combinava muito com o tanto de coisa bonita que ela tinha pra falar.
A gente conversou sobre os astros e ela me falou que por mais que eu tentasse buscar as estrelas pra ela, não ia dar. Que era muito alto. Mas eu não vou desistir não! Um dia ainda trepo numa mangueira e agarro uma luzinha daquelas; vou colocar num vidro e dar pra moça, que é pra ver se ela ilumina aquele sorriso bobo que ela tem.
Ela disse pra mim que eu não entendo nada das coisas da vida e desatou a falar sobre o dinheiro. Falou que é por causa dele que os homens trabalham e as crianças estudam. Que é ele que move o mundo e também faz ter a guerra e que é ele que faz as pessoas terem vontade de viver.
Nessa hora eu comecei a querer perguntar, mas ela mandou eu calar e me contou que só tem uma coisa que faz os homens mudarem as vezes, que deixa eles com o coração meio mole e que faz eles pensarem menos, que é o amor. Ai eu falei que eu acho que eu sou cheio disso, então.
E ela me deu aquele sorriso bobo que ela tem.