domingo, 23 de janeiro de 2011

Diálogo

- Mas porquê você não ficou triste com essas coisas?
- Não sei. Acho que antes de qualquer coisa, me edifico detrás de algo forte o suficiente para que afaste de mim qualquer manifestação rude ou impensada.
- Por parte dos outros?
- É claro. Eu não faço mal a mim mesma.
- Nem quando você decide abrir mão de algo de que gosta ou acredita, só pra agradar outra pessoa?
- Nunca fiz isso.
- Isso, no mínimo, é impossível.
- Não. Impossível é tudo aquilo em que não se deposita fé. E eu acredito muito no amor que temos por nós mesmos; mais do que no amor de uns pelos outros.
- Você é oca.
- Não me esforço pra fazer ninguém feliz. Quem quiser isso, que siga meus passos. Porque sou eu quem enxerga o mundo com esses olhos fatigados. Muita gente julga anonimamente, mas não sabe de um terço do que se passa na tua vida. Isso é errado. E já que não tenho como saber quem é honesto, padronizo meus sentimentos.
- Isso é tudo?
- Sim.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Só de passagem

Quero toda a sujeira do mundo nas minhas mãos, que é pra eu dar um basta na dor.
Vou sair por ai, fazendo mutirão no coração das pessoas. Vou recolher as angústias do povo, o choro das crianças, a fome do mundo e o leite derramado.
Quero ver quem vai correr de mim com medo de ficar sem tristeza, quem vai me desafiar dizendo que não sou capaz.
Vou buscar nas retinas o arrependimento dos homens, vou sugar o desespero da alma dos doentes, e dar aos que nada tem, tudo o que o mundo lhes deve por direito.
A raiva vai me encarar de frente e eu vou fazer dela um tapete vermelho, por onde os humildes hão de passar.
Os corações vão conhecer a vaidade, os carentes, carinho. E os apaixonados darão ainda mais sentido à vida. Ensinarão que a pressa deve andar a passos lentos, que o tempo gosta de andar acompanhado.
Não quero saber de um só fio de tristeza neste mundo.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Um Severino

A moça tinha os cabelos presos e um par de olhos que eu acho que era capaz de caber o mundo todinho lá dentro. Um sorriso meio bobo, que não combinava muito com o tanto de coisa bonita que ela tinha pra falar.
A gente conversou sobre os astros e ela me falou que por mais que eu tentasse buscar as estrelas pra ela, não ia dar. Que era muito alto. Mas eu não vou desistir não! Um dia ainda trepo numa mangueira e agarro uma luzinha daquelas; vou colocar num vidro e dar pra moça, que é pra ver se ela ilumina aquele sorriso bobo que ela tem.
Ela disse pra mim que eu não entendo nada das coisas da vida e desatou a falar sobre o dinheiro. Falou que é por causa dele que os homens trabalham e as crianças estudam. Que é ele que move o mundo e também faz ter a guerra e que é ele que faz as pessoas terem vontade de viver.
Nessa hora eu comecei a querer perguntar, mas ela mandou eu calar e me contou que só tem uma coisa que faz os homens mudarem as vezes, que deixa eles com o coração meio mole e que faz eles pensarem menos, que é o amor. Ai eu falei que eu acho que eu sou cheio disso, então.
E ela me deu aquele sorriso bobo que ela tem.